TEXTOS CAUBÓI


























 
Archives
<< current













 
Textos e fotos publicados por Fernanda D´Umbra

fernandadumbra@terra.com.br


sem gelo
 
Segunda-feira, Junho 07, 2004  
NÃO MAIS


Não escreverei mais aqui.
Já não escrevia mais aqui.

O Mário me diz: seu negócio com a escrita é que você tem talento, mas não tem vocação. Ele acertou a cabeça da mosca.

Porra, vocação é quase tudo. Eu sei porque faço teatro e sem vocação neguinho não dura no teatro.

Eu me entristeci imensamente em ver o sem gelo deslinkado de um monte de blogs. O que eu vou dizer?

Os caras têm razão. Eu não escrevo. Eu não "atualizo".
Eu vou embora.

Sei que uma porrada de gente bacana insiste em me visitar.
Vou dizer o que? Nem faço valer esse crédito.

Então saí e comprei um walkman.
Para ouvir fitas cassetes enquanto caminho por aí.

O Mário hoje me ajudou a arrumar outro endereço.

É o seguinte: www.semgelo.zip.net

Azul e branco. Achei bonito.

Talvez eu escreva lá.

Talvez eu grave uma fita só de músicas que falem de bebida.
Hoje eu beberia algumas doses duplas e puras.

Vou indo, então.

Valeu a visita.

6:10 PM

Sexta-feira, Maio 21, 2004  
NÃO GOSTO DE COMIDA VELHA

Londrina foi legal demais.
As duas sessões de A FRENTE FRIA QUE A CHUVA TRAZ estavam lotadas antes da gente chegar.

Vários dias antes da gente chegar.
E as apresentações foram matadoras.

Saíram duas críticas na Folha de Londrina e no Jornal de Londrina.
Uma do Marcos Losnak e outra do Maurício Arruda Mendonça.
Emocionantes.

E o elenco do FRENTE FRIA é formado por uma moçada muito gente boa. Enfim, uma viagem bacana como há muito tempo a gente não fazia.

E os amigos do Mário ficaram bebendo com a gente.
Os amigos do Mário de quem eu gosto tanto e que se tornaram meus amigos também em muitos casos.

E eu revi o Robocop. Falei com o Márcio Américo por telefone porque o Marcião anda sumido e apareceu no futebol. Mas eu evidentemente não fui ao futebol.
O Marcio Américo assistiu ao espetáculo. E gostou muito. E disse que eu tenho que fazer um monólogo. Sei...

O Leonardo ficou no Bar do Jota lembrando da nossa casa do Brooklin aqui em São Paulo quando morávamos eu, o Mário, o Leo e a Gabi (namorada do Leo) e a casa era o inferno. Miséria e doideira. Das bravas.

Eu voltei a pé para o hotel conversando com o Mário sobre como a gente tinha sobrevivido àquilo tudo. E sobre como a gente realmente tinha deixado aquilo passar. A tristeza e a doideira de quando a gente se casou e era muito pobre e muito doido. E muito inconseqüente.

Muita gente que pirou não conseguiu mais se recuperar. Perdeu tudo e fica se requentando hoje em dia. Vide as bandas de rock dos anos 80 que de vez em quando gravam uns acústicos safados e sem graça numa tentativa patética de sei lá o que.
E isso é o que eu chamo de comida velha.

E isso a gente não faria. Tenho muito orgulho de ter sobrevivido e saído ilesa de recalques e rancores e esses sentimentos cretinos.

A gente por aqui anda feliz como há muito tempo não acontecia.

Salve a fraqueza alheia, que mantém os requentados bem longe daqui.

E nada como estar longe desses caras.

1:21 PM

Domingo, Maio 16, 2004  
LONDRINA FICA LONGE DAQUI

Quando eu era pequena, minha prima Patrícia me disse: eu moro em Londrina e Londrina fica em outro estado. Eu morava em São José do Rio Preto e achei que era muito louco ter uma prima que morava em outro estado, achei que Londrina era muito longe e depois nunca mais pensei nisso.

Quando prestei vestibular, ia prestar em Londrina, mas passei antes em uma faculdade de São Paulo e São Paulo sempre foi pra mim o que de melhor poderia acontecer para alguém e eu vim pra cá feliz da vida.

Depois conheci o Mário que era de Londrina. Hoje eu penso: se eu tivesse ido pra lá talvez teria encurtado essa nossa história toda. Bobagem, talvez tivesse encurtado demais.

E hoje à noite eu entro num ônibus cheio de amigos e me mando pro FILO que é o Festival Internacional de Londrina.
Vou levar a Amsterdan pra passear.

Lá tomarei um uísque com meu Tio Mário. Não meu marido, que eu não chamo de tio, meu tio mesmo que se chama Mário e é o pai da prima que eu falei aí em cima.

A gente apresenta lá nos dias 18 e 19 (terça e quarta) A FRENTE FRIA QUE A CHUVA TRAZ.

Disseram que é o espetáculo mais procurado do Teatro Zaqueu de Melo.
O Cemitério de Automóveis é de lá, então acho que vai ser bom pra caramba.

Rever um monte de gente, entre elas minha enteada Isabela, que vai colar na gente.

O que eu acho ótimo porque taí uma mina de quem eu gosto muito.

Deve estar frio lá. O Mário sempre tem que me abraçar na rua porque eu passo mal de frio.
Eu exagero às vezes. Eu exagero quase sempre. Não é fácil, não.


SARAU NO SESC PINHEIROS

O Luiz, sempre muito gentil conosco, mandou um convite para o próximo Sarau Divergente do SESC Pinheiros. Quem apresenta é a Cláudia Missura, puta atriz, mina muito gente boa, que estava na EAD (Escola de Arte Dramática) na mesma época que eu e comeu muito no bandeijão da USP comigo.

Eu sempre me lembro da cara que ela fez quando me viu lambendo a faca de comida para descascar a laranja, que era a sobremesa. Sobremesa de bandeijão é sempre banana, laranja, arroz doce, maçã ou laranja. Ou banana. Ou arroz doce.

Bom, falava do Sarau...

No último que rolou lá, o Mário se apresentou com o Amalfi e o Noa e o Marcelo Montenegro leu seus poemas muito bem acompanhado pelo Amalfi na guitarra e o Schevano ao piano.

Por falar em Marcelo ontem levei seu livro de poemas o ORFANATO PORTÁTIL para o salão de beleza. Muito bom, a mulher me enchendo de tinta eu lá lendo Marcelo Montenegro. Já tinha lido, é claro, mas queria reler. Ando meio Reinaldo Moraes, gostando de reler livros mesmo tendo pilhas imensas de livros inéditos (para mim) espalhadas por todos os cantos dessa casa.

Ah, o Sarau Divergente do SESC Pinheiros...

O próximo será na quarta - feira, dia 19 de maio.

Não estaremos lá porque vamos para Londrina, mas eu certamente iria porque segundo o próprio Luiz será uma bela homenagem para o Itamar Assunção com direito a leitura de poemas da Alice Ruiz, uma de suas grandes parceiras. Vale esclarecer que ela estará lá para ler seus poemas.

Conheci Alice em um show do poeta Rodrigo Garcia Lopes. Fomos beber em um bar perto do SESC Pompéia e ela ria muito de uma piada que eu fiz sobre casamento que eu não vou escrever aqui porque é coisa que se diz, mas não se escreve.

Vá lá se estiver aí. Se você é o cara que não vai com a minha cara, aproveite que não estarei lá e deleite-se.

SARAU DIVERGENTE NO SESC PINHEIROS

DIA 19 DE MAIO, QUARTA - FEIRA

Com Cláudia Missura, Denise Assunção, Alice Ruiz, Alzira Espíndola, Makumbacyber e Os Gêmeos.

Quem será que são Os Gêmeos?

OS PREÇOS:

R$ 4,00 > comerciários

R$ 5,00 > usuários, mis (?), aposentados e estudantes

R$ 10,00 > outros

Não vai dar uma de louco e querer pagar R$ 5,00 porque você é usuário.
É usuário do SESC, bocó.

O ENDEREÇO

Av.Rebouças, 2876
Fone: 3815.3999

www.sescsp.org.br

2:31 PM

Quinta-feira, Maio 13, 2004  
NÃO, CAROS

Não tenho tido tempo.
Nem pra explicar porque.

6:51 PM

 
EU VOU EMBORA DAQUI

Logo que voltar do Paraná.
Ou antes se me der muito na telha.


6:50 PM

Sábado, Maio 01, 2004  
JON FOSSE e BOB FOSSE

Jon Fosse é guitarrista, escritor, dramaturgo e escreveu O NOME de um jeito preciso e com uma melodia estranha.
Eu vi O NOME na quinta feira passada lá no SESI.
No Mezanino, que ficou muito bacana como espaço para teatro.

Não deve ser fácil fazer aquela peça, não do jeito bem feito que os caras fizeram.
Os caras: Denise Weinberg na direção, Alexandre Tenório na tradução e o elenco do Núcleo Experimental do SESI, que é do caralho.

Eu adorei o texto do cara, os personagens têm um desenho estranho, parecem um rascunho: falam em um ritmo cortado, se movimentam muitas vezes de forma automática sem saber o que estão fazendo, parecem distraídos e compulsivos ao mesmo tempo e definitivamente não sabem o que vai acontecer daqui a cinco minutos. Tentam se relacionar, já que são parentes (filhos, pais, irmãs, namorados, amigos), mas não rola.

Jon Fosse lota o texto de rubricas porque é na ida até a janela, no vai e vem do quarto pra sala, da sala pra fora que os personagens acontecem. Tem ali uma dose bem servida de esquizofrenia. Uma escrita bem charmosa a de Mr. Fosse, o Jon.
O personagem do pai é fantástico. Seco, confuso, nada sobra ali. Pra falar a verdade, nada sobra na peça inteira.
Mas o cara é norueguês. Fudeu. Ao menos pra mim que sou monoglota.
Porque eu queria ler todos os textos dele.
Eu queria ver a peça de novo e talvez faça isso.
Porque ali ninguém deveu nada a Jon Fosse: a direção da Denise é fudida de boa. Diz ela que respeitou todas as rubricas de marcação do cara. No alvo, Denise.

O elenco mata a pau. Moçada muito boa. Moçada muito boa mesmo. Todos eles.

E o SESI, hein? Que legal! Levando umas peças desse naipe lá.

Enquanto isso, Bob Fosse que viveu nos Estados Unidos, era diretor e coreógrafo e criou o musical CHICAGO aprecia de onde estiver no além sua franquia funcionando a milhão.

Confesso: tenho vontade de ver CHICAGO.
A história das minas assassinas.
Mas não tenho muita vontade.
Prefiro ver o Jon Fosse de novo.

E eu li: "Não há nada mais atual hoje do que o tema de CHICAGO, que fala dessa busca pela fama a qualquer preço".

Ahã... Atual pra você, que só vê essas bostas na televisão.

Em O NOME você vai ver pessoas perdidas, ausentes, estressadas, distraídas.
Do jeito que a gente vê aos montes pela rua.
Nos dias de hoje, já que a barato é ser atual...

Eu tô andando se o texto é ou não contemporâneo.
O que vale é a escrita do cara. E a montagem dos caras.
Não perca.



6:59 PM

Quarta-feira, Abril 28, 2004  
FERNANDA, A TIA FÊ

Tentei escrever um post onde não precisasse acentuar nada.

Meu computador não estava acentuando e eu sempre me recusei a usar essa linguagem de internet.

Quem recebe os e-mails do Cemitério ou lê meu blog sabe que eu nunca uso coisas do tipo: tb, mt, kct, vc, q, bjs e outras merdas.
Abomino essa linguagem.
Mas aproveitei que meu computador bichou de vez de tanto "warming" e "something for you" que eu recebi e tentei escrever um post como se tivesse 15 anos :),

Não consegui como podem notar. Tah bem + ou -

Pra que tenham uma idéia do quanto sou tiazinha o que me irritou mesmo foi a transformação do acento agudo em h.
Eu sei que a rede é um troço mundial e a gente tem que se livrar dessas amarras as quais nossa língua pátria nos condena, mas eu gosto de ler e de escrever em português.

E não agora é naum.
Como diziam os pais nos anos 70, no tempo em que filhos obedeciam pais e não os matavam com barras de ferro: não é não.

Nas escolas os alunos não sabem mais escrever. E os professores não sabem o que fazer para evitar que a moçada use essas merdas em suas redações.
Fazer o que? Eles passam horas em chats escrevendo: Vc tb eh d+.

Eu sinto mt.

Naum queria me incomodar com isso, mas acho chato que as pessoas naum escrevam mais as palavras.
Elas devem ter pouco tempo e muitos chats para conversar, muitos comentários pertinentes a fazer e muitos e-mails para responder.

Mas ninguém vai me convencer de que beijo e igual a bj.
Na minha adolescência as meninas assinavam os cadernos assim: "Fê, 1000 bjs pra você".
E hoje essa é a linguagem que domina a rede.
Não gosto dela desde aquela época.

Eu não sou nenhuma débil e sei que é normal escrever desse jeito na rede, mas não queria que virasse regra em todo lugar.
De qualquer forma não estarei aqui quando essa linguagem for adotada nas escolas de ensino fundamental.

Eu sou só uma chata inofensiva, cujo blog nem espaço para comentários tem.
Uma tia, sem comentários :(


Aqui posando de Tia Fê. Literalmente.

6:48 PM

Terça-feira, Abril 27, 2004  
MEU COMPUTADOR NÃO COLA MAIS NADA

E O BLOGGER NÃO ME DÁ TEMPO SUFICIENTE PARA REDIGIR MEU ÚLTIMO POST.

TENTAREI NOVAMENTE MAIS TARDE.

3:17 PM

Domingo, Abril 18, 2004  
DIGA 33

É engraçado.

Tive medo de morrer umas três vezes nesses 33 anos.

Estive mesmo perto de morrer umas duas.

Sou um pouco mais forte (fisicamente) do que a maioria das mulheres.

Agi como homem nas duas vezes em que estive perto de morrer e esse foi meu erro.

Não tenho jeito de homem, não transo mulheres, mas raciocinei como um e me ferrei.

As mulheres devem continuar resolvendo suas coisas com uma cruzada de pernas. Agora eu entendi.
Dói bem menos e é bem mais fácil. Pra todo mundo.

No dia 20 do 04 de 2004 farei 33 anos.

Darei uma festa muito bacana no Teatro Alfredo Mesquita.

Se quiser, apareça:
Av. Santos Dumont, 1770 - Santana - São Paulo - SP
A partir das 21 horas.

Vejam só: morei durante a infância e adolescência em uma rua que também se chamava Santos Dumont, no número 16.
Era em São José do Rio Preto.

Todo mundo daquela casa estará aqui.
Menos meu pai, que já morreu e me espera.

Espero que por uns 33 anos ainda.

Eu e minha irmã, Eliana. Sou a menor.
Minha pernas eram meio tortas. São bem melhores agora.

3:00 PM

Terça-feira, Abril 13, 2004  


Até o último fio de cabelo.

Botamos o escritório abaixo.

Não, não derrubamos nada.

Estamos tirando as coisas da estante com calma desta vez, mas eu tô passando muito mal com todo esse pó.

Acho que vou tomar um gole de tequila.

Sim. Vou lá.

Mas só um.

9:30 PM

Segunda-feira, Abril 12, 2004  
FURIO, FURIO, FURIO

Eu adoraria indicar um dos textos do Furio, mas é impossível. Todos são imperdíveis.

Entre agora na Gonzo e descubra porque Furio Lonza não recebe muitos convites para festas de aniversário.

Para a minha ele será devidamente convidado, mas não virá porque segundo ele só vem a São Paulo quando perde aposta.

Roteiro básico para uma vida sem livros, é genial.
Vi no Rancho Carne do Galera.

É um puta texto sério em que eu quase morri de rir.
O Furio chuta forte.

Outro dia mandou um e-mail dizendo que quando escrever um novo livro vai me pedir pra fazer a orelha. Puta honra.
Mesmo que ele mude de idéia.

3:33 PM

 
NÃO FAÇAM ISSO COM ELE

O Mário é muito engraçado.
Perdeu o sono e fritava no sofá.

Estava tomado de uma revolta inconsolável.

Exibiram a refilmagem e não o original de Vanishing Point.

Ele tinha indicado o filme no blog, "o que vão pensar os caras que foram na indicação?".

Só eu vi a cara dele quando ligou a TV e encontrou Viggo.

Ele ficou muito chateado.
Muito chateado mesmo.
Isso é sério para ele.
Aliás é isso que é sério para ele.

Tanto que às 8h47 já havia se retratado no blog.
Vocês pensam que é fácil?



HOJE TEM LANÇAMENTO

Do livro OS CEM MENORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO.

E minhas duas mãos estão estendidas esperando a palmatória porque quando o Marcelino escreveu para o Mário pedindo a ele um mini conto eu disse: Ah, isso é fácil.

Pobre mulher ignorante.

Mas de burra eu não tenho muito e ignorância tem cura.

Bom remédio é o livro Crimes Exemplares do Max Aub, que saiu pela Amauta Editorial.

Saquem Mr. Aub:
"De mim ninguém mais ri. Esse, pelo menos, não."

Adorei esse negócio. Sou chegada mesmo em uma síntese.

Na Folha de São Paulo foram publicados alguns dos pequeninos contos que estão no CEM MENORES CONTOS (...).

A organização é do grande Marcelino Freire.

HOJE > a partir das 20h
Na Livraria do Espaço Unibanco de Cinema
Rua Augusta, 1.475
Tel.> 3141.2610


E quem vai estar lá certamente é o Ademir Assunção que comentou meus textos em seu blog. Porra, Pinduca, achei muito legal.

O Nilo Oliveira escreveu um conto lindo e podrão influenciado por meus últimos posts e o Ronaldo Ventura me perguntou o que a gente pode fazer?

Várias pessoas me escreveram depois que eu falei das meninas do Amparo Maternal e das mulheres na cadeia.

E eu não paro de pensar nisso.

3:01 PM

Sábado, Abril 10, 2004  
MAIS DO MESMO

A Aline Abovsky é uma amiga com quem tive uma briga muito séria.
Que durou um ano e deve ter sido alimentada com muito Neston por algumas pessoas.

Eu e Aline somos amigas novamente.
Nós dançamos juntas na última terça feira.
Dançamos literalmente, em uma festa, com copos de uísque na mão.

E agora ela tá montando uma peça com a Esther Laccava, outra amiga, sobre duas minas que já dançaram.

Dançaram feio. Não como eu e a Aline na última terça feira.

A propósito, sobre o que falávamos?

O texto que segue abaixo é da Aline, que tem um blog chamado www.narobada.blogger.com.br

Sugestivo.

Vai, Aline:

"Elas são muitas e são de Franco da Rocha.

Elas não têm visita íntima e não são íntimas de ninguém.
Elas não podem usar nada que fuja do branco e bege.
Elas não falam palavrões entre elas lá dentro.
Elas se cominicam pelas mãos entre elas, mas isto ninguém sabe.
Elas te olham com um olhar desconfiado, mas logo passa.
Elas fazem o contorno das tatuagens lá dentro para poder colorí-las aqui fora.
Elas te chamam de Dona e Senhora, mesmo que você tenha menos idade que elas.
Elas são muitas e gritam quando a comida tá azeda e têm que esperar o jumbo seguinte.
Dentro das celas, na hora de comer, é proibido ir ao banhiro e tossir. E isto é muito sério.
Elas pegaram de 2 a muitos anos. Alguns 12s forjados, elas disseram.
121 é pouco, mas existe. 157, é pouco, mas existe. 171, é pouco, mas existe.
E o marido ou namorado que as deixaram sozinhas depois de terem caído é o que mais existe.

Fumei uns cigarros com elas no banheiro e me lembrei da época de escola quando eu fazia a mesma coisa. Fiquei olhando e ouvindo o que elas tinham a me dizer. E elas têm muito o que dizer. Elas me pegavam pelas mãos e não me deixavam ir embora. O que pretendem fazer quando sairem? Melhor perguntar a elas."


A Aline e a Esther estiveram algumas vezes lá em Franco da Rocha.
O Marião é quem tá dirigindo as duas. A peça estréia em maio.

As mulheres ainda estarão lá em Franco da Rocha quando as duas ficarem nervosas ao ouvir o barulho do público entrando.


Aline e André Ceccato (que dispensa comentários)

3:15 PM

Sexta-feira, Abril 09, 2004  
AMIZADE

Marcelo Montenegro é um dos meus melhores amigos.
Amigo do Mário e do Cemitério de Automóveis inteiro.

Deleitem-se com seu texto:


"REFERÊNCIAS

A pior coisa que uma namorada pode fazer e sempre faz é quando a gente já chega atrasado e ela ainda inventa de querer mijar antes de entrar no cinema.

A melhor descrição sobre a cena do massacre no Carandiru do Hector Babenco infelizmente eu não lembro de quem é: parece o Thriller do Michael Jackson.

A melhor definição sobre ser artista é do Domingos de Oliveira, no Separações, respondendo à sua filha: esse papo de artista é um troço que a gente inventa pra poder acordar mais tarde no dia seguinte.

A definição mais engraçada de uma pessoa sobre o seu próprio estilo de jogo é do Edu Batistella: só bato forte; e colocado.

A definição mais precisa sobre malas é do Mário Bortolotto, falando sobre um deles: o cara é tão mala que vai aprender a tocar sax.

A melhor cena sobre confiança, obviamente, tá no Confiança, do Harl Hartley, quando a mulher tá em pé, em cima do muro, de braços abertos e se larga, de costas, só pra ver se o cara que tá na calçada a segura antes da queda.

A melhor metáfora sobre diferenças de temperamento entre dois irmãos aconteceu comigo e com meu irmão, o Alexandre, na primeira vez que minha mãe nos levou ao dentista. Entramos ao mesmo tempo e eu fui atendido primeiro. Depois fiquei esperando. A dentista fez pra ele a mesma pergunta que fez pra mim antes de furar o dente com aquele aparelhinho maldito: se doer você levanta a mão, tá bom? Eu segurei a dor e não falei nada. Já meu irmão levantou o braço prontamente mal ela encostou o negócio na sua boca.

A pessoinha que tá se formando na barriga da Kátia, minha mulher, é a coisa mais despudoradamente bonita e inexplicável que eu já senti até hoje na porra da minha vida. Claro, Só as Mães são Felizes. Mas a melhor canção sobre mãe vai pra Barriga de Fora, do Kleber Albuquerque. De pai é aquela do Sérgio Sampaio que agora me foge o nome, do disco Eu quero é botar meu bloco na rua, que o Fábio Henriques me emprestou há alguns anos me apresentando assim à obra do cara.

A cena que melhor sintetiza a parte boa de se morar com os pais é você chegar bêbado em casa de madrugada e encontrar uns dois três pedaços de pizza no fogão. O verso que melhor sintetiza a parte ruim de se morar com os pais é do Raul Seixas: tô trancado aqui no quarto de pijama porque tem visita estranha na sala.

A história de amor mais triste é a do King Kong, disparado. E o melhor texto sobre essa história se chama Um Grande Amor e é do Luís Fernando Veríssimo.

A definição mais arguta sobre relacionamento é da Fernanda D´umbra: uma pensão de quinta categoria onde o amor é obrigado a pernoitar.

A maior questão filosófica sem dúvida nenhuma é do Reinaldo Moraes no Tanto Faz: não sei se prolongo a tarde ou inauguro de vez a noite.

Uma das frases que melhor define meus amigos é do Kerouac: aqueles que querem tudo ao mesmo tempo e nunca bocejam.

A melhor sacada sobre o filme Estrada Perdida, do David Linch, é do Jairo Ferreira: um on the road metafísico. Se eu escrevesse o meu próprio On the Road o Negão seria o Dean Moriarty e Denver seria na divisa de Santo André com São Caetano, mais especificamente no bairro Santa Maria, perto de onde o Batata morava.

A música mais triste que já ouvi na vida é aquela que toca no fim do seriado do Incrível Hulk, quando o David Banner volta, pela estrada e sozinho, pra onde mesmo? É que depois de um tempo a gente irremediavelmente percebe que não dá mais pra voltar para casa."

12:17 PM

Quarta-feira, Abril 07, 2004  
MULHERES DE NOVO

E o Kusum lá de Curitiba me mandou um e-mail sobre meu post sobre as mulheres encarceradas.
Disse que passou o texto para umas minas e uma delas veio com essa:

"Fiz um trabalho na colônia penal (tem este nome melhorzinho, mas é cadeia mesmo) daqui (Uberlândia) e as diferenças no tratamento são escandalosas: homens tomam banho de sol todos os dias, pela manhã inteira; as mulheres, só algumas vezes por semana, por poucas horas; os homens podem transar com suas visitas; as mulheres só podem transar com os guardas da cadeia... e ai vai."


Eu falei, o negócio é sério.
Essas minas de cadeia tão ferradas mesmo.

E o assunto não anda me perseguindo?
Ontem li uma entrevista com meninas saídas da Febem.
Uma delas aproveitou os nove meses de férias nos quintos dos infernos e largou o crack.

Assim que saiu seu irmão a levou pra boca. Super legal.

O crack é pra onde vão os caras que a escória não quer.

E na entrevista elas falavam como bandidos: saí da tranca, queimei minha L.A (liberdade assistida), meti uma quadrada na cintura...

E são bonitas. Novas. Fudidas.

Trabalhei um tempo no Amparo Maternal aqui em São Paulo.
As meninas vindas dos mais diversos lugares entram lá no sétimo mês de gravidez, não podem entrar antes. É um lugar bacana que as atende, faz o pré-natal final e o parto. Lugar legal mesmo, sem ironia.

Muitas das meninas são moleques grávidos.

Eu participava da missa com elas às sextas feiras quando fazíamos a novena do Sagrado Coração de Jesus (sim, sou católica e fui praticante durante um bom tempo).
Mas para você cumprir a novena são necessários nove meses e elas tinham que sair de lá três meses depois de dar à luz seus bebês. Portanto ficavam no Amparo Maternal por cinco meses em média.

Uma delas com uma coisinha minúscula no colo se despediu de mim uma vez pedindo pra que se eu fosse até o final da novena pedisse por seu bebê que tinha nascido com problemas. Eu pedi. Eu pedi de joelhos. Eu não fiz nada na verdade, porque essas coisas de justiça e igualdade são assuntos nossos. Eu rezei e isso não é de muita valia em casos como o dela.

O que eu fazia lá? Vocês não vão acreditar: eu ensinava boas maneiras para elas.
Um trabalho insano pra se fazer com aquelas garotas em três meses. Elas faziam curso de manicure, mas não sabiam pedir emprego porque não sabiam se apresentar nos salões de beleza . Eu as ensinava a dizer "boa tarde", "meu nome é Lucila", essas coisas.

Mas uma coisa me chamou muita atenção quando comecei: todas, sem exceção sabiam dizer "obrigada".
No caso delas, agradecer seja lá a quem ou o que for pode ser garantia de sobrevivência.

O resto é etiqueta. O resto é dignidade.

10:27 PM

 
This page is powered by Blogger.